Antes de optar por um curso, é preciso se conhecer

Alexandre Nobeschi
Simone Harnik
Da Folha de S.Paulo

Em busca de um modelo, os jovens na fase da escolha profissional costumam seguir, muitas vezes inconscientegosta daímente, os passos dos pais ou de pessoas que consideram bem-sucedidas.

Mas a psicopedagoga da Unesp de Araraquara Maria Beatriz Loureiro de Oliveira adverte: "Ter exemplos é bom, só que é preciso neutralizar as influências para fazer a escolha com liberdade".

Maria Beatriz afirma que, na hora de decidir, é preciso ficar livre das pressões e observar os próprios interesses e aptidões.

"A gente costuma dizer para os estudantes que primeiro eles precisam se ver, se conhecer, para depois se identificarem com a profissão."

A professora, que coordena o processo de orientação profissional de 150 estudantes, afirma ainda que a escolha da profissão não termina nela mesma. "Hoje, as pessoas vão construindo um papel profissional. É importante não ter ansiedade", diz.

"Não existe pesquisa no mundo que diga que quem se formou mais cedo é mais feliz profissionalmente. O que os estudos têm mostrado é que os que entram mais maduros na faculdade têm aproveitamento melhor."

Pressão familiar

De acordo com uma pesquisa desenvolvida na Unesp de Araraquara e coordenada por Maria Beatriz, mais de 60% dos estudantes apontam o pai como o modelo de profissional a ser seguido. "A influência dos pais é muito severa. O jovem tem que ficar atento para realizar o próprio sonho e não o desejo dos pais", diz.

Para a professora, existem três tipos de pais: os que dão palpites demais e acabam atrapalhando na hora da escolha; os omissos, que também não ajudam; e os que fazem a chamada "escuta inteligente". Essa seria a postura ideal -quando o pai dá atenção, se mostra interessado, mas não aponta a carreira a seguir.

"Os pais sempre querem ajudar, mas começam a idealizar o caminho dos filhos. Na hora de o filho escolher a carreira, os pais não devem instigar, investigar. O certo é ouvir. De preferência sem verbalizar muita coisa. Dar atenção é diferente de dar palpite", afirma.

O psicoterapeuta e professor da PUC de São Paulo Antonio Carlos Amador Pereira ressalta a importância do diálogo na família. "O desejável é que a família troque muitas idéias. O jovem precisa de um interlocutor, porque ele tem a expectativa de que as pessoas se importem com ele."

Os pais de Bruna Fernandes, 18, procuram não definir o caminho que a filha deve seguir, mas já demonstraram suas preferências. "Estou em dúvida entre direito, ciências biomédicas e turismo. As duas primeiras eles não criticam, mas turismo eles não gostariam que eu prestasse", diz.

A estudante conta que a mãe gostaria que ela fizesse arquitetura, porque sempre se encantou com a profissão. "Mas, para mim, esse curso mexe com exatas mais do que pretendo estudar."

Pé na realidade

A questão financeira e a dependência dos pais também pode pesar no processo de decisão da carreira. "O pai sabe que, para o filho estudar, vai ter de sustentar a escolha. São cinco, seis anos que o adolescente precisa contar com o pai", diz Yvette Piha Lehman, coordenadora do serviço de orientação profissional da psicologia na USP.

"Os pais estão perdidos porque não há garantias de que a profissão vai dar um lugar de trabalho. E o investimento no estudo está cada vez mais caro", afirma.

Para a supervisora de orientação vocacional da clínica psicológica da PUC, Regina Sônia Fernandes do Nascimento, é importante que o jovem tenha "um pé na realidade". "O estudante precisa saber como viabilizar o projeto a que se propõe, como atingir o local que deseja na carreira", diz.

"Mas o vestibulando tem de saber que o seu projeto não é estático. Se ele mudar, se seus interesses se alterarem, muda o rumo do projeto. O importante é pensar na viabilidade e em como transpor as dificuldades."

Dez mandamentos na hora da decisão

1. Procure se conhecer, observar seus interesses e suas paixões. A sua decisão tem que ser baseada em valores próprios.

2. Não tenha medo do desconhecido. Reúna o máximo de informações. Busque conhecer novos horizontes, mesmo que isso traga insegurança.

3. Não tenha pressa: um ano a mais não vai atrapalhar ninguém.

4. Converse com seus pais. A escolha não é uma mágica, é um processo. É importante que exista diálogo e que os pais escutem seus filhos.

5. A melhor escolha é a da profissão que o jovem gosta. A preocupação exagerada com emprego e o mercado atrapalha. Só é possível defender uma carreira com a qual você se identifica.

6. Não escolha a carreira com base em pessoas bem-sucedidas que conhece (como pais, tios e amigos). O ideal é decidir conhecendo a profissão.

7. Um erro na escolha profissional não é um erro na vida. A vida é muito mais do que a decisão da carreira.

8. Arriscar é fundamental. Quem arrisca e é corajoso vai ao encontro do que sonha profissionalmente.

9. Não se limite pelos testes vocacionais. Eles dão dica para o autoconhecimento, mas não servem para definir a profissão por você.

10. O difícil não é escolher, e sim deixar as outras possibilidades para trás. E, se for necessário, você tem que saber recomeçar, reorientar o caminho profissional sempre que for preciso.